Para evitar boatos, Tite não irá a jogos do Brasil na Copa

Tite não é só um técnico de futebol. É um estudioso, um especialista e um apaixonado pela bola. Gosta de estudar, ler livros e ir aos estádios para ver grandes times. É o que ele tem feito nos últimos meses, quando afastou quaisquer sondagens de quem queria contratá-lo. Seguiu como um típico torcedor, que gosta de conversar abertamente sobre qualquer tema. Em Lisboa para acompanhar a final da Liga dos Campeões, Tite deu entrevista exclusiva ao Terra nesse clima de conversa aberta. Ele comentou sobre seu passado recente, seu futuro próximo e principalmente sobre a Copa do Mundo. Nem foi preciso perguntar muito sobre o assunto. Ele se empolgou e analisou as principais seleções de forma espontânea. Sabe um pouco sobre todas. Só não soube o que dizer quando comentou sobre sua presença nos jogos do Brasil.

Tite projeta Copa do Mundo e lista favoritos

Foto: Ricardo Matsukawa / Terra

Tite vai abrir mão do prazer e da visão de assistir a um jogo dentro do estádio. Ele está especulado como substituto de Luiz Felipe Scolari na Seleção e por isso pretende ser discreto. Diz que não está incomodado pelos boatos, mas claramente lamenta por não poder ver o jogo entre Brasil e Croácia, que será o duelo mais difícil da primeira fase para o time de Felipão, de acordo com Tite.

Sem poder ver o jogo do Brasil em campo, Tite marcará presença no duelo entre Espanha e Holanda, pois admira o futebol dos atuais campeões do mundo e o coloca como um dos mais admiráveis para a Copa, junto a Itália, Alemanha e França. Fã de inovações táticas, Tite aponta o Chile como possível surpresa, principalmente por causa do raro 3-6-1 do técnico Jorge Sampaoli.

Copa do Mundo à parte, Tite contou que tem perdido o sono por causa da saudade de treinar algum clube. E apesar das sondagens que recebeu, não abriu mão do “período de reavaliação” que planejou. Preferiu ler um livro de filosofia escrito por Johan Cruyff, estudar espanhol e italiano e conversar com a imprensa, com a qual discorda muitas vezes, mas também diz aprender. “Todo técnico tem que ser 50% apaixonado e 50% louco”, brincou Tite, em entrevista em que mostrou ser mais do que 50% apaixonado por futebol.

Veja em tópicos as declarações de Tite:

O que viu nesses seis meses fora

Treinador diz que recebeu sondagens, mas só volta após a Copa

Foto: Bruno Santos / Terra

É uma possibilidade que eu tenho de acompanhar jogos importantes fora do País e dentro do País. É um momento de observar e ficar atento a sistemas táticos, preparação das equipes e jogos importantes. Porque eu tenho condição de ficar aprimorando, desenvolvendo e esse momento serve para isso. Tivemos acompanhando, em Manchester, o City contra o Barça; também o Arsenal contra o Bayern e agora a final da Liga. Vi as três equipes (Manchester City, Bayern de Munique e Real Madrid) que são as mais importantes hoje

Situação do futebol brasileiro taticamente

Está em proceeso de evolução, assim como seus dirigentes, que estão aprendendo que futebol mexe com paixão, mas tem que ser realista e tem que ter coragem suficiente para aguentar as pressões que vem de fora. Assim como temos que buscar uma melhor qualificação em termos de atletas, assim como a imprensa, que outrora fazia só uma análise do “ganhou ou perdeu, melhor ou pior”, mas hoje a análise é muito mais evoluída, mais detalhada. Tu avalia em termos táticos, termos técnicos, termos físicos, termos emocionais. Antes a cobertura do futebol era daquele cara que chegava na imprensa e falava ‘pô, tu não tem nada para fazer, então vai para o futebol’. Hoje não, a exigência é do profissional qualificado, que venha fazer uma entrevista e tenha poder de argumentação. Então há esse processo evolutivo, inclusive no Brasil. Um detalhe em relação à Europa talvez seja o problema da língua e também uma pitada de preconcento. Fala-se muito que o Brasil tem qualidade dos atletas, mas não técnico. Mas temos técnicos de grande qualidade também.

Dificuldade e estudo de idiomas

A facilidade de comunicação, em função do espanhol, facilita os técnicos argentinos e chilenos na Europa. Só acredito em sucesso com excelência no domínio da língua. Mas tem, por exemplo, Portugal. Você em condição na Itália, na Espanha, que são mais acessíveis de trabalhar e ter uma condição de fluência. Não vou estudar inglês não, porque tu tem que ter uma fluência muito grande, mas italiano e espanhol, que são mais fáceis, sim – sou descendente de italiano, falo um pouco do dialeto e compreendo tudo, então isso pode vir a ser. A busca é por apefeiçoamento sim, gosto de leitura, gosto de acompanhamento in loco, de enxergar a preparação das equipes, o clima de jogo, tudo aquilo que envolve a preparação, é importante para acompanhar o jogo, Mas ver o jogo na pressão do momento serve para você observar, ouvir e aprender, até com vocês da imprensa, o quanto o nível de opinião isso gera. Hoje quando você está envolvendo não dá para fazer isso. São muitas coisas, muitas atribuições. Agora não, agora dá para eu dar um passo para trás, observar de fora, que ela é um degrau de uma escada para a gente poder subir

O que tem estudado

Em termos de livros tem dois de língua, um espanhol e um italiano. Tem um de duas linhas de quatro, com dois atacantes enfiados e um retornando de posição. Em termos de filosofia eu estou lendo um livro de 2012 do Cruyff, que ele fala da implantação tática desde a Holanda, depois do Barça, para entender a filosofia. O nome do livro é “Minha Filosofia”. Em termos táticos quero fazer essa análisa mais à distância, mas com uma observação; os sistemas não vão ter novidades. Ou ele é 4-2-3-1, ou é duas linhas de quatro. Ou é 4-1-4-1. Envetualmente tu pega a Juventus, campeã com 3-6-1, ou a seleção chilena. Os detalhes são as compactações ofensivas ou defensivas. Ou encomprindar o teu time ou alargar o teu time, criar espaços. Essa dinâmica toda que é importante. Fora isso, tento acompanhar a imprensa a fazer essas observações, tem essa interação. Vocês fazem as de vocês e eu fico comparando com as minhas.

Saudade

Tenho muita saudade, normalmente nas quarta-feiras, quando acontecem as rodadas. Tenho dificuldades para dormir, porque a adrenalina fica a milhão. Se tu assiste o jogo ao vivo ou na televisão, você fica envolvido naquilo. Nos jogos que você tá dentro seu nível de concentração é extremamente alto. É uma vida toda direcionada para isso. Mas tenho consciência que é um período importante de reavaliação, de ver onde acertou ou errou e de crescimento.

Propostas

Não deixei chegar nesse estágio de proposta. Foi sondagem, da possibilidade de ir. Eu coerentemente tenho colocado que até o final da Copa eu não vou trabalhar, justamente para estar melhor preparado na sequência

O que espera ver na Copa 

Alguns jogos quero ver ao vivo, porque eles têm importancia. Assistindo a Copa das Confederações, Espanha e Itália são duas seleções que eu queria observar. Uma é mais da triangulação, da troca de passes, do jogo curto; e a outra é de muita marcação e contra-ataque. Na Copa o clima às vezes muito quente, no Rio de Janeiro e em Salvador, só para exemplificar, vão te dar um desgaste aspecto físico, que vai ser determinante para os resultados. E umas escolas que a gente tem, vejo Alemanha, forte, com opções ofensivas de muita qualidade. Vi a França jogar, e a capacidade física e de velocidade é muito grande. Para exemplificar: o Pogba é um exemplo típico das caractéristicas do time francês. Você tem o Ribery, que pode te dar uma qualidade a mais, e tem Benzema, que pode dar um ‘up’ de qualidade técnica. Tem a Argentina, que é sempre muito forte e do meio para frente tem muita muita muita qualidade. E tem o único jogador no mundo que pode decidir sozinho. O Cristiano Ronaldo também, mas ele é um pouco dependente da criação para a bola chegar nele, precisa de transição. O Messi vem buscar atrás e daqui a pouco faz jogada decisiva

Surpresas

Vejo uma surpresa potencial o Chile, que joga em um 3-6-1, com muita transição ofensiva. Ele quase quase não tem peça fixa. O jogador mais avançado deles é o Vargas, que joga com o Alexis… É uma velocidade assustadora. E você pega Vidal, que vem por trás. Tem também dois alas espetados. Quer dizer: é uma equipe muito móvel. Tem a Colômbia, com uma equipe interessante, mas vamos ver se Falcao García vai voltar. Sei que problema no joelho é mais difícil. Fala-se muito da Bélgica e eu gosto muito do Hazard. Acho o Kompany um baita zagueiro. Mas tem um grupo que tem Chile, Espanha e Holanda e aí sim tem cheiro de poder entrar Chile e sobrar para alguém aí.

Seleção Brasileira

Não tem ninguém melhor taticamente que o Brasil. Primeiro porque sistemas são iguais ao nosso. Só o Chile que vai jogar no 3-6-1. Não vejo a diferença em termos táticos. E vejo que o Brasil conseguiu um detalhe importante: ele trouxe os atletas que estão jogando na Seleção com a mesma função que estão exercendo nos seus clubes. É um grande acréscimo. Vi entrevista do Oscar dizendo ‘me sinto bem porque jogo na função que exerço no meu clube’. Isso é fundamental. Isso te facilita uma engrenagem. E a Copa das Confederações fez esse equipe se consolidar. Vejo só Alemanha à frente, porque tem uma base da Copa passada, mas em termos táticos não vejo mais não

Jogo mais difícil para o Brasil

É contra a Croácia, porque primeiro jogo já gera exptativa emocional muito forte. E a expectativa no Brasil é muito alta. Só se fala que em 50 perdeu e agora vamos vencer. Então daqui a pouco aquela naturalidade pode se tornar pressão. Vi o Suker (ex-jogador) falando da seleção croata, avaliando situação e colocando em termos estratégicos. ‘Se a Croácia conseguir administrar o primeiro tempo, então a pressão no Brasil vai ser muito grande’. Fora a qualidade que tem, com jogadores excepcionais. Se tu olha para o Modric, vê porque o Real abriu mão do Özil. É um jogador moderno, que é competitivo. Tem Mandzukic, Raktic, que vi na final da Liga Europa, ele jogou muito…

Pressão

Em relação ao grupo não acredito que atrapalhe, pela qualidade e pela maturidade que esse grupo adquiriu. Mas, a partir daí, vai depender. Vai que sai perdendo em uma quartas de final. Como emocionalmente isso vai te abalar? Lembro que em 2010 nós estávamos fazendo uma grande campanha e lembro que fizemos 1 a 0. Na hora que deu o gol de empate parece que deu pane, parece que a equipe se desestruturou, o nível de confiança baixou, a concentração baixou e o time não conseguiu jogar mais.

Onde ver os jogos do Brasil

Eu confesso que estou em dúvida ainda. Quero acompanhar alguns jogo importantes. O primeiro deles é no Maracanã, no dia 16, Espanha x Holanda. Não sei se vou na abertura e em alguns jogos. Principalmente contra a Croácia eu gostaria de assistir, mas não sei se vou ficar sossegado em casa. Mesmo que eu tenha uma visão mais restrita, talvez eu deva ficar em casa.

Boatos sobre assumir a Seleção

Isso não me incomoda, me gratifica. Mas eu quero ficar à margem disso tudo. Sei que existe um ciclo que vai terminar. Eu me tornei agora um torcedor da Seleção Brasileira pelo desempenho e resultado. Não por ganhar a qualquer custo. Não sou daqueles caras que dizem que ‘importante é ganhar’. Não, tu tem que jogar, tem que ter um desempenho igual teve na Copa das Confederações, tem que atropelar, tem que ser melhor, tem que ser mais competente, tem que marcar mais. Então estou nessa expectativa de que o Brasil vença. Depois disso eu não sei. Se encerra, outros profissionais vão abrir. Dentro eles um é o Tite, mas tem mais outros três ou quatro técnicos, que vão estar em evidência, que criaram oportunidade. Se não for lá, vai ser em outro clube. Se não for em outro clube, pode ser em outra seleção. O que tenho que fazer é encarar isso com naturalidade e me preparar para que as coisas caiam no meu colo e eu não diga ‘agora eu não estava pensando’. Minha busca profissional é de ascensão, com naturalidade, com simplicidade. Mas também não gosto muito de ficar assistindo. Nesse aspecto eu sou um pouquinho mais discreto.

Carreira como técnico antes e depois da reciclagem

Eu sempre tive uma convicção: técnico tem que ser 50% apaixonado e 50% louco. Porque nós lidamos com uma pressão! Porque todo mundo, de alguma fora… nós estamos em seis aqui. Se nós formos falar, nós não temos a mesma Seleção. Todos nós temos uma peça diferente, com alguma peça diferente. Entender esse lado democrático, que cada um pode ter a ideia diferente. Isso faz parte. Então um pouquinho dessa paixão, dessa loucura, dessa coisa de que todo mundo tem uma opinião e entende. Eu sou apaixonado, porque faço o que eu gosto. Era jogar futebol. Interrompi. Mas acho que Papai do Céu olhou para mim e disse assim: ‘vem cá, tu não é um atleta de alto nível, então vamos te levar para o lado de técnico que talvez você faça algum sucesso’.

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